Bem sucedido profissionalmente, as custas de muito sacrifício e trabalho, progrediu. Construiu uma família composta por esposa e dois filhos, dedicando-se com afinco, nada faltando de material ou emocional caso por ventura necessitassem. Sua característica principal era o silêncio, tido como de poucas palavras evitando conflitos sejam de ordem profissional pessoal ou ideológica. Nunca era visto discutindo sobre qualquer tema e sempre que em alguma ocasião era impelido ou provocado à disputa, imediatamente calava-se, recolhia-se, não por covardia ou medo, mas por verdadeira aversão a este tipo de embate; não via nenhuma vantagem.
Em casa queria saber dos estudos dos filhos e da vida cotidiana, procurando sempre sair com eles e a esposa. Reservava burocraticamente uma noite por semana para algum jantar ou mesmo cinema ou teatro, que pudesse dar a ela alguma compensação emocional pela dedicação exclusiva à tarefa de ser mãe e administrar a casa cuidando dos filhos.
O sucesso chegava para ele por ser pessoa dedicada e estudiosa, embora não tivesse o apoio de grupos que pudessem alavancar sua carreira, e pela esperteza do olhar, de forma individual como um lobo solitário, aguardava a oportunidade pacientemente. Talvez tenha sido este método de atuação que o levou a estar no momento certo para alavancar a carreira de forma bem sucedida, mas que tinha um preço. Como tudo na vida é pago, seu preço só Deus e ele sabiam; agora pacientemente contava para aquela mulher que compartilhou com ele sua vida pessoal como secretária dedicada e sincera. Cuidava de toda sua vida dentro da empresa, nunca tinha notado nela uma falsidade, um deslize, nada que a desabonasse em sua atividade profissional.
De fato, além de profissionalmente competente, por ser solteira, tratava da vida profissional do chefe como verdadeira esposa. Dava a ele momentos de atenção e carinho compartilhando as dificuldades profissionais, coisa que sua esposa não poderia fazer já que pouco entendia e não tinha a vivência necessária para entender os trâmites do mundo dos negócios. Sua esposa achava que as carreiras eram lineares subindo os mais competentes por reconhecimento dos méritos pessoais e profissionais, e por tal, seu marido preenchia todos os quesitos necessários para avançar, já que possuía vida pessoal estável, por ela velada cuidadosamente.
Sua secretária com discrição e competência nunca deixou revelar um sentimento a mais pelo chefe, que ele como homem compreendia como possível, intuía, enfim achava em seu íntimo que havia naquela mulher mais do que uma simples dedicação profissional, um zelo a mais que consigo chamava de amor. Apesar do conjunto da obra, zelo no serviço associado a conselhos profissionais e familiares, nunca chegaram aos prazeres do amor, menos por medo de avançar e mais pelas consequências materiais que isto acarretaria.Temia o desgaste familiar e o preconceito arraigado de que poderia prejudicar sua carreira profissional na empresa, e sabendo eventos escandalosos entre funcionários sempre emitia opiniões desabonadoras a respeito.
Apesar de um amor interesseiramente platônico, a confiança era total sob todos os pontos de vista, depois de obtido todos os postos e vantagens dentro daquela empresa. Por ter chegado ao auge não teria mais nada a ambicionar levando-o a uma revisão interior de sua vida, trazendo à tona um fato que foi o divisor de águas para o seu sucesso; enquanto falava, ela impassível e pacientemente o escutava.
Conta que ao ser admitido foi trabalhar em um departamento diretamente relacionado à diretoria, e junto a ele entrou o filho de um diretor que ocupava cargo chave de acesso à presidência. Ambos mantinham relação cordial mesmo porque sabia que suas chances em vencer o filho de um dos diretores, era mínima, restando além do conformismo, alguma migalha que pudesse daí advir, mesmo porque o relacionamento entre o pai e filho além de cordial e respeitoso mostrava a bondade do diretor para com ele, que por questões óbvias, privilegiava o filho. Dava contudo certo grau de atenção e admiração a ele, sabia de suas origens humildes e de sua ambição e dedicação pela empresa. Sempre achava que em algum momento também seria aquinhoado com alguma coisa, menos obviamente que o colega, pois decerto o melhor seria para ele e disto não tinha dúvidas.
Tratou portanto de agradar a pai e filho, pois no mínimo, sabia ser esta a melhor política, caso contrário, uma disputa certamente o levaria ao fracasso. O melhor era se conformar e esperar uma oportunidade em outra empresa talvez.
Sempre saia com o amigo procurando de certa forma cativar sua confiança, indo a festas, boates, quer dizer: conhecia mais ou menos seus hábitos, de certa forma bastante previsíveis.
Aos poucos por não ter condições de acompanhar o ritmo do amigo, a base de riqueza era evidente, o sucesso com as mulheres, os gastos e tudo o mais, levaram-no a se convencer de que aquele ritmo não era para ele, procurando manter uma relação mais formal já que a social estava levando a um desgaste desnecessário.
Passou com o tempo achar que devido a afinidade dele com o pai do amigo, caso aquele homem ficasse sem seu filho e não possuindo outro para colocar em seu lugar, algum lucro teria caso houvesse algum imprevisto em sua vida . Esta ideia passou a tomar corpo no seu interior e a cada conversa que tinha com o pai do amigo, notava uma relação positiva, mas certo que o pai iria privilegiar o filho por questões óbvias e que entendia perfeitamente.
Quem sabe, pensou ele, um assalto com morte mudaria a sua sorte com aquele homem, ideia esta que passou a atormentá-lo já que viviam numa grande cidade e este tipo de evento hoje em dia era uma rotina. Como tinha acompanhado todos os passos do amigo na preparação para assumir o lugar do pai na empresa, não seria absurdo pensar que na perda do filho, o amigo que a seu lado esteve poderia assumir o lugar a ele reservado. Esta ideia começava a deixar de atormentá-lo para silenciosamente tomar corpo em sua alma, deixando de ser um pesadelo, uma angústia, para tomar formato de plano, de insídia. Observou que não seria muito difícil executá-la, pois conhecia os passos do amigo e caso escolhesse um local adequado, pouco povoado, poderia quando saísse do automóvel sofrer um assalto com morte e perda de alguns pertences.
Providenciou uma arma clandestina e fez de forma discreta um curso de manejo, e ao se achar em condições de execução do plano, não pensou duas vezes. Como sabia o local em que naquela noite de sábado o amigo iria, pois o teria confidenciado, viu que pelas condições do mesmo, seu recolhimento e pouca gente, que aquele estacionamento seria o ideal para executar seu plano. Aguardando-o de forma discreta e prestando a atenção para saber se estava só, viu que era chegada a sua hora anunciando o assalto, no qual o amigo meio que desconfiado saiu do carro para entregá-lo, foi alvejado na cabeça sem defesa e com morte imediata. Procurou retirar alguns objetos pessoais e procedeu imediata fuga.
Ao ser informado pelo pai do amigo o acontecido, dirigiu-se ao encontro daquele que se tornaria mais tarde seu protetor e nesta hora de desespero mostrando amizade e compaixão, decerto daria mais consistência a seu plano. Como tudo ia bem foi ficando para os preparativos, velório e por fim enterro e com grande consternação chegou a chorar, não sabendo se pela perda do amigo ou se pela merda que tinha feito, tudo por ambição cega e covardia.
Daí para frente era só recolher os frutos daquela empreitada bem sucedida, pois segundo informações da polícia e acompanhadas atenciosamente por ele, infelizmente não havia nenhuma pista do assaltante, pois deveria segundo supunham os policiais, ser originário de qualquer favela das redondezas, ficando este como mais um crime a ser desvendado.
Notando estar em vantagem nos acontecimentos, procurava tocar a vida de forma discreta como sempre tinha feito e deixando para a espontaneidade dos fatos, a sorte sorrir-lhe como estava ansiosamente esperando. Ao retornar ao trabalho, assumiu todas as obrigações que eram de sua vítima, pois além de conhecê-las perfeitamente era a pessoa que profissionalmente estava mais habilitada a receber tais funções, e devido ao bom relacionamento com o chefe, não houve nenhuma objeção por parte dos demais membros da diretoria.
Daí para o sucesso foi uma questão de tempo até que devido ao desgosto pela perda do filho, aquele pai resolve se aposentar e deixar o amigo do seu filho no lugar, no que foi muito bem aceito pelos demais, advindo daí, uma carreira de sucesso.
Escutava atenta até que aquele homem livre do pesadelo que o atormentava a anos, silenciou e de cabeça baixa mostrava o alívio da consciência atormentada por um sucesso obtido pelo ódio, fraqueza e covardia, provocando nela o perdão dos apaixonados; levantaram-se, ela o abraçou e o beijou profundamente pois saberia ser esta a única oportunidade que teria.