Crônicas sobre a vida cotidiana, com o realismo pertinente. Histórias ou estórias muitas delas fruto da imaginação, ou mesmo retiradas ou conhecidas do folclore nacional, do imaginário popular, podendo ser verídicas ou não.
Por Um instante | Quarta-feira, 06 Outubro , 2010, 15:11

 

 

 

Era um homem casado que tinha contraido matrimônio jovem, em decorrência a precipitação de sua esposa o que não tinha sido um bom negócio, viviam as turras, com consequente afastamento entre marido e mulher cuja frieza os levou a viverem em cidades separadas.
Ele, jovem de aspecto alegre era sempre cortejado pelas mulheres na esperança de alguma aventura ou mesmo algo mais sólido e definitivo. Encantou-se por aquela mulher que era bonita, culta, com gestos meigos e delicados mas sabia que entre eles havia uma grande muralha, isto é, um casamento mal sucedido. Este fato impedia que tomasse força um amor que para ela, solteira, cheia de sonhos, não poderia prosperar impedido por motivos religiosos, preconceituosos e quem sabe, outros interesses talvez inconfessáveis.
Fortemente assediada por ele mas sem declarar-lhe o amor intenso, a vontade de sexo não conhecido, um dia precipitou-lhe dizendo que recebera uma proposta de casamento pois estava a algum tempo de namoro, por passatempo é verdade, que tinha se tornado sério devido aquela proposta. Casou-se na igreja de crentes com aval dos pastores e de toda a família, deixando aquele homem com ares daquilo que não foi ou vida não vivida.
Tempos passaram e ele já com certa idade, filhos crescendo, abatido por grave enfermidade sendo inclusive visitado por ela no leito de morte. Como tudo na vida tem lá seus caprichos, ela também vítima da precipitação e assodamento não tinha casamento feliz, o que a levou a grave desgosto e desespero, cujo enfrentamento deste infortúnio acabou por tornar-se solitário.
Certa feita já na casa dos cinquenta anos, solitária, encontra-se com aquele homem da juventude também bastante gasto pelas experiências vividas e aproveitando que ele estava só, achou que estaria alí o momento de conseguir a felicidade sonhada. Ambos com certa experiência e forte dose de sofrimento, poderiam quem sabe, viver ou reviver o amor de juventude ainda não vivido. Ao conversarem mostrou a ele seu amor, seus sonhos, as esperanças em construir uma vida a dois, e quem sabe reviver na maturidade o que lhes foi negado na juventude por preconceito, interesse e violência da própia vida.

Imediatamente ele lhe disse que por estes mesmos motivos, pela violência, pelo anacronismo, pelo desgaste do tempo, gostaria de deixar no passado a lembrança do amor não vivido, da vida sonhada e não materializada pois quando ele quis, a vida lhe disse não, agora que a vida quer, acha melhor dizer não a vida. Tudo por uma simples diferença e talvez fundamental, que o tempo, a idade, a vida e experiência vivida, decerto colocou todos os sonhos por água abaixo, havendo um tempo para vivenciar a vida, e o que ela queria naquele momento era viver um tempo não vivido alguns anos depois, o que seria um erro.
Após a confissão e com a dura reposta levantaram-se do chá na confeitaria, se despediram e nunca mais se encontraram.

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