
Era uma mulher bem casada com filhos marido e vida familiar organizada. Decerto, não trocaria aquela vida por qualquer outra, já que a estabilidade emocional e familiar adquiridas com o casamento, não conseguiria encontrar em nenhuma outra pessoa. Tinha seu trabalho e independência financeira, o que na verdade, facilitava bastante seu modo de viver.
No trabalho era muito bem conceituada entre os pares, até que seu companheiro de repartição a tratava com especial deferencia em relação à outras pessoas. Sempre saíam para almoçar e com o passar dos tempos foram adquirindo mútua confiança, intimidade.
Não demorou muito para que entre eles, apesar de ela casada e ele solteiro, chegasse o momento que sem que pudessem evitar, surgisse o primeiro beijo. Daí para a primeira escapada até o motel foi um pulo. Com o susto e dúvidas decorrentes à primeira vez, tudo foi se tornando uma doce rotina na vida daquelas duas pessoas. Acharam que era uma chance ao amor, que veio meio à esquerda e com boa doze de cumplicidade, sem evidentemente destruir a vida daquela mulher, tudo correria bem, visto que ele entendia perfeitamente os motivos dela, e ela aceitava com certa complacência aquela novidade aventureira.
Utilizava o máximo de discrição em suas escapadas procurando motéis mais afastados, para que posteriormente pudesse deixá-la em uma região acessível visando seguir na direção de casa. Como sempre a sorte ou azar tem lá seus caprichos.
Um dia, saindo do motel um pouco atrasados, aumentou um pouco a velocidade além do normal, para que ela chegasse em casa sempre nos mesmos horários. Por ser a estrada deserta, acelerou o carro devido ao horário e de repente, surge na frente do veículo, uma criança de mais ou menos seis anos de idade, que devido ao forte impacto foi lançada à distância. No desespero, parou, desceu e observou que a criança agonizava. Imediatamente, como homem de bem, colocou a criança no carro, dirigindo-se ao hospital, mas devido a situação dela, começaram a discutir qual seria a melhor saída, observando neste interim que a criança morrera.
Agora com dois problemas, resolveu livrar-se de ambos, logicamente com calma, saberia que teria sucesso. primeiramente parou num atalho e colocou a criança no porta malas visando acobertar que carregava um cadáver. Logo a seguir levou a namorada até um local em que pudesse apanhar uma condução para casa, combinando encontrar-se no dia seguinte para dar a ela detalhes do que teria feito com o cadáver.
Sozinho com o cadáver de uma criança no porta malas, resolveu que a levaria até um ponto bem distante da cidade, para lá abandonar, e assim se ver livre daquele grave delito. Dirigindo à auto estrada, procurou viajar com calma para aos poucos aliviar a forte tensão emocional a que estava submetido. Mas como sempre, a sorte ou o azar tem lá seus caprichos, pois foi abordado por uma blits policial, que pede para que desça, para ser feita vistoria do veículo e os testes de alcoolemia. Demostrando bastante nervosismo, fez o teste que deu negativo e os policiais continuaram os procedimentos de rotina, até que ao abrirem o porta malas, depararem com o cadáver da criança; tentou explicar, falando a verdade mas que foi difícil a aceitação da mesma, com inclusive sinais de revolta por parte da polícia, sofrendo agressões pela covardia, já que devido as condições do cadáver, ninguém acreditou que foi somente um acidente.
Levado a delegacia, apresentou a versão verdadeira sem nada falar sobre testemunhas, no que foi totalmente rejeitada pelo delegado, com enquadramento nos crimes de homicídio doloso e tentativa de ocultação de cadáver com imediata prisão do acusado.
Ao chegar no dia seguinte a repartição, ela toma pé da situação estampada nos jornais com comentários de todos, cada um exibindo uma versão apropriada ao evento, inclusive colocando ingredientes sobre o carácter do acusado; impassível ouvia a todos sem nada falar.
O acontecimento foi motivo de comoção por um longo tempo, e aquela mulher, viu toda a sua aventura amorosa e de sonhos com aquele homem, que tinha nela despertado o amor, ser massacrado publicamente, e ela, nada podendo fazer sob o risco de destruição da própria vida.
Sem coragem para visitá-lo na prisão viu o tempo passar até chegar o dia do julgamento, amplamente divulgado por toda a imprensa. Acompanhou silenciosamente todos os passos, guardando para si uma verdade, que se não o livrasse, talvez a destruisse, e neste dilema, seguiu em frente até ser proclamado o veredicto condenatório de trinta anos de prisão para desespero de ambos.
Passaram-se dez anos, e após o esquecimento do caso, aquele homem recebe o benefício da liberdade condicional. Dez anos mais velho, andando pela cidade a procura de emprego, fica próximo ao local onde trabalhava, esperando quem sabe, encontrar-se com ela ou com algum velho amigo que pudesse baseado em experiências passadas alguma luz refletir.
Estando sentado próximo ao restaurante onde ambos costumavam almoçar e onde tudo começou, viu aquela mulher dez anos mais velha, pouco desgastada pelo tempo, bastante alegre, acompanhada de uma senhor que parecia companheiro de trabalho e com muita intimidade; sentaram-se a mesa, almoçaram e depois sorridentes, entraram no carro e foram em direção ignorada por ele. Achou melhor deixar pra lá e seguir a vida.