Crônicas sobre a vida cotidiana, com o realismo pertinente. Histórias ou estórias muitas delas fruto da imaginação, ou mesmo retiradas ou conhecidas do folclore nacional, do imaginário popular, podendo ser verídicas ou não.
Por Um instante | Quinta-feira, 05 Agosto , 2010, 16:16

 

 

 

Era uma mulher exemplar que pedira um horário para desabafar, e com isto, conseguir perdão dos pecados relatando sonhos eróticos com o marido de sua vizinha, que não vivia bem com o esposo. Já na casa dos quarenta e poucos anos, relatava cenas picantes que mentalizava, inclusive menáge devido certa intimidade com a amiga a quem em confiança tinha feito tal proposta, mas recusada, pois com ele não fazia sexo confidenciado pela amiga, nem para ela olhava preferindo o prazer solitário, a noite a seu lado, ao compartilhamento a dois. Calado, o confidente ouvia a tudo pois como homem sabia muito bem o que era a vida solitária e mulheres para ele só em sonhos; aquela mulher mesmo sabendo disso, de forma provocante tocava no assunto como se quisesse estimulá-lo.

Relatava seus momentos íntimos a sós na busca do prazer descrevendo detalhes até a chegada ao orgasmo. Já acostumada ao prazer solitário, não sabia mais o que era dividi-lo, deixando o pobre confidente exitado na esperança de quem sabe o chamasse para compartilharem o amor. O que mais a perturbava não era tanto o fato de cobiçar o homem da amiga mas o de não ser desejada por ele, ou quem sabe, transgredirem juntos, pois a ela não dirigia mais do que um olhar frio e um cumprimento formal; com a amiga, dividia a raiva e o ressentimento pela sensação de não serem cobiçadas, pois a ambas o que mais satisfaria o ego, seria a possibilidade do surgimento de alguma proposta socialmente proibida.
Mostraria que na selvagem luta pela sobrevivência estavam no jogo, eram cobiçadas e o que mais doía em ambas, era não aparecer nem uma caça e a que estava disponível, as ignorava, estando aí toda a causa de uma surda luta travada entre as amigas e o lobo, que resolvia suas vontades solitariamente ignorando impulsos e instintos femininos. Ambas, a mulher e a vizinha, cujo desleixo era tanto que nem imaginava ser fruto de secretas vontades, não vontades de amor mas vontades de sexo, de instinto animal ou seja lá o que fosse.
A questão principal para ela não era ser casada ou cobiçar o homem da amiga, pois estas questões fazem parte do jogo da sobrevivência do amor, mas o que a importunava e a amiga também, era não serem desejadas por outro homem, serem olhadas com frieza formal, não havendo a transgressão da cantada ou cobiça em que pudessem afirmar o instinto de fêmea. Gostaria quem sabe, da cobiça do confidente para talvez repreendê-lo, satisfeita em estar na luta instintiva do sexo sublimado sobre a forma de amor, mesmo sabendo que aquele homem, estaria querendo apenas a satisfação instintiva, matar a fome, e ela o seu alimento desejado, despertando o sentimento de realização por ter sido cobiçada e desejada por outro macho.
Sinal que ainda estava no jogo da vida, do amor, do sexo; haveria alguém que ainda se interessasse por ela acarretando uma melhoria de sua auto estima. O que mais doía em seu íntimo era saber que também a fome do confidente era saciada de forma solitária, com manipulação, deixando-a abatida pois tal gesto apenas colocaria seu ego a beira do abismo.
Intimamente gostaria que o confidente também procurasse a transgressão da quebra da confiança em ouvir, pois isto levaria a uma melhoria do instinto de fêmea, cujo papel lhe foi dado pela mãe natureza e seu cumprimento estava impedido por um simples ato solitário.
De qualquer forma resgataria o sentido feminino, levando-a de volta a juventude quando era objeto do desejo, cobiçada pelos de sua idade na busca incessante de sexo, de vida, seja por amor ou por simples curiosidade já que o prazer ainda não estava totalmente identificado em seu consciente. Naquele tempo tudo estaria por vir e nada ainda realizado, cuja vida apenas iniciava, sendo que agora surge a constatação dura de que a vida passava e vida vivida é vida vivida.

 

 

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