Crônicas sobre a vida cotidiana, com o realismo pertinente. Histórias ou estórias muitas delas fruto da imaginação, ou mesmo retiradas ou conhecidas do folclore nacional, do imaginário popular, podendo ser verídicas ou não.
Por Um instante | Domingo, 13 Março , 2011, 15:45

 

 

 Originário da Península Ibérica possuia antes de tudo alma cosmopolita, dado aos assuntos da filosofia e Cabala, constituindo-se basicamente em um homem bom, iniciado nos segredos da vida, tinha optado pelo sacerdócio por fé e grande curiosidade com a vida dedicada ao senhor. Chegou entre nós fugido de intempérides políticas, cuja vida profana que levou no velho continente foi trocada pelo celibato sacerdotal mais como forma de proteção do que propriamente de fé.

Levado a andar pelos caminhos do mundo, certa vez encontrou-se numa igreja do interior, e por ser só, passou a receber ajuda dos fieis principalmente das senhoras. Por falta de logística foi morar em casa próxima à igreja, atendido pelas famílias e principalmente por sua vizinha mais próxima. Na verdade morava em lugar ermo com precaridade de luz, possuindo atividade paralela que lhe dava confortável condição financeira. Chegava em casa à noite pois fazia ofício religioso na igreja, e por volta das vinte horas recolhia-se à seu quarto.
Na parte dos fundos morava ela com trinta e poucos anos, casamento sem muitas ilusões com o marido muito trabalhador mas que levava vida boêmia, por vezes saindo as sextas feiras e só retornando na segunda a noite. Insatisfeita com a situação, muitas vezes passando por necessidades materiais, aos poucos foi se aproximando daquele padre, primeiro no intuito de prestar-lhe os serviços que necessitava e posteriormente, por certa intimidade, apreciar sua companhia.
Com o passar dos tempos foi se apegando a ele, desabafando, e com o tempo adquirindo confiança por ambas as partes, ele por estar preso ao celibato sacerdotal e ela a fidelidade ao casamento, tornando-os bastante próximos e com certa cumplicidade secreta. Sempre que chegava em casa por volta das vinte horas aproveitava o escuro da noite e levava-lhe o jantar, já que não tinha empregada ou quem pudesse mandá-lo comida. Sempre sentava-se a seu lado levando prosa amena, sobre coisas não religiosas, política, governos, folclore, já que possuía curiosidade e cultura para cativá-la. Sem levar uma vida sexual regular com o marido e já mãe de treis filhos, certo dia foi surpreendida por um abraço seguido de um beijo prontamente correspondidos. Daí para frente passaram de livre e espontânea vontade a terem vida sexual regular, aproveitando desinteresse dela pelo marido que possuindo trabalho pouco higiênico, era levava por vezes a dormir sem banho noturno acarretando nela cada vez mais o afastamento, pois estava com alguém completamente oposto àquilo que possuia em casa. Passado um período juntos informou-lhe que seria mãe de um filho dele, no que foi prontamente aceito e correspondida pela alegria de dar àquele homem um filho, pois estava impedido de ter um por motivos de compromisso com o celibato.
Aproveitando os sinais inciais de gravidez, passou a ter com seu marido algum concurso sexual visando posteriormente informá-lo de que seria pai, evitando assim, questionamentos posteriores. Nove meses depois nasceu uma criança que foi bem recebida por ambos os pais e apresentada na igreja, como de praxe e posteriomente batizada pelo pároco que acabou tornando-se o padrinho pela proximidade com a família da criança.
Com o passar dos anos andava com aquele menino na garupa de uma moto dizendo a todos tratar de seu afilhado. Levava-o a todos os lugares que podia, inclusive em reuniões institucionais que participava. Apesar de ninguém saber que era o chefe institucional de algumas organizações, aquele menino tornou-se motivo de inveja já que era afilhado do padre e este o levava a todos os lugares. Com ele, visitou presos, sinagogas, igrejas de outros credos, sempre bem arrumado por ela e sempre na agradável companhia do padrinho.
Mergulhado em tormentas patrocinadas pelos inimigos ocultos e pelos falsos amigos, adoeceu, cuja luta e desespero provocado por desafetos que conheciam suas intimidades e as exploravam visando enfraquecê-lo e tirar o máximo de vantagem possível. Em meio ao agravamento de sua doença acabou por se internar no hospital local, dando margem a que seus inimigos apressassem sua morte através de medicamentos, pois entre eles estavam médicos e enfermeiros.
Por fim acabou falecendo quando seu filho tinha sete anos e deixando aquela mulher só, entregue a própria sorte e envolta por lembranças de momentos vividos à seu lado. Agora era só realidade, criar o filho, educá-lo e evitar que ficasse a mercẽ do ódio daqueles que atraiçoaram a seu pai e vivos permaneciam. A vida viria a ensinar ao seu filho que nem tudo que aparenta é, deixando a ele a descoberta da verdadeira face de seu passado, muito do que foi por ela ensinado e mais ainda pelo que lhe ensinaram; a vida é assim.

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Por Um instante | Domingo, 27 Fevereiro , 2011, 18:28

 

Era uma mulher bem casada com filhos marido e vida familiar organizada. Decerto, não trocaria aquela vida por qualquer outra, já que a estabilidade emocional e familiar adquiridas com o casamento, não conseguiria encontrar em nenhuma outra pessoa. Tinha seu trabalho e independência financeira, o que na verdade, facilitava bastante seu modo de viver. 

No trabalho era muito bem conceituada entre os pares, até que seu companheiro de repartição a tratava com especial deferencia em relação à outras pessoas. Sempre saíam para almoçar e com o passar dos tempos foram adquirindo mútua confiança, intimidade. 
Não demorou muito para que entre eles, apesar de ela casada e ele solteiro, chegasse o momento que sem que pudessem evitar, surgisse o primeiro beijo. Daí para a primeira escapada até o motel foi um pulo. Com o susto e dúvidas decorrentes à primeira vez, tudo foi se tornando uma doce rotina na vida daquelas duas pessoas. Acharam que era uma chance ao amor, que veio meio à esquerda e com boa doze de cumplicidade, sem evidentemente destruir a vida daquela mulher, tudo correria bem, visto que ele entendia perfeitamente os motivos dela, e ela aceitava com certa complacência aquela novidade aventureira. 
Utilizava o máximo de discrição em suas escapadas procurando motéis mais afastados, para que posteriormente pudesse deixá-la em uma região acessível visando seguir na direção de casa. Como sempre a sorte ou azar tem lá seus caprichos.
Um dia, saindo do motel um pouco atrasados, aumentou um pouco a velocidade além do normal, para que ela chegasse em casa sempre nos mesmos horários. Por ser a estrada deserta, acelerou o carro devido ao horário e de repente, surge na frente do veículo, uma criança de mais ou menos seis anos de idade, que devido ao forte impacto foi lançada à distância. No desespero, parou, desceu e observou que a criança agonizava. Imediatamente, como homem de bem, colocou a criança no carro, dirigindo-se ao hospital, mas devido a situação dela, começaram a discutir qual seria a melhor saída, observando neste interim que a criança morrera. 
Agora com dois problemas, resolveu livrar-se de ambos, logicamente com calma, saberia que teria sucesso. primeiramente parou num atalho e colocou a criança no porta malas visando acobertar que carregava um cadáver. Logo a seguir levou a namorada até um local em que pudesse apanhar uma condução para casa, combinando encontrar-se no dia seguinte para dar a ela detalhes do que teria feito com o cadáver. 
Sozinho com o cadáver de uma criança no porta malas, resolveu que a levaria até um ponto bem distante da cidade, para lá abandonar, e assim se ver livre daquele grave delito. Dirigindo à auto estrada, procurou viajar com calma para aos poucos aliviar a forte tensão emocional a que estava submetido. Mas como sempre, a sorte ou o azar tem lá seus caprichos, pois foi abordado por uma blits policial, que pede para que desça, para ser feita vistoria do veículo e os testes de alcoolemia. Demostrando bastante nervosismo, fez o teste que deu negativo e os policiais continuaram os procedimentos de rotina, até que ao abrirem o porta malas, depararem com o cadáver da criança; tentou explicar, falando a verdade mas que foi difícil a aceitação da mesma, com inclusive sinais de revolta por parte da polícia, sofrendo agressões pela covardia, já que devido as condições do cadáver, ninguém acreditou que foi somente um acidente. 
Levado a delegacia, apresentou a versão verdadeira sem nada falar sobre testemunhas, no que foi totalmente rejeitada pelo delegado, com enquadramento nos crimes de homicídio doloso e tentativa de ocultação de cadáver com imediata prisão do acusado. 
Ao chegar no dia seguinte a repartição, ela toma pé da situação estampada nos jornais com comentários de todos, cada um exibindo uma versão apropriada ao evento, inclusive colocando ingredientes sobre o carácter do acusado; impassível ouvia a todos sem nada falar. 
O acontecimento foi motivo de comoção por um longo tempo, e aquela mulher, viu toda a sua aventura amorosa e de sonhos com aquele homem, que tinha nela despertado o amor, ser massacrado publicamente, e ela, nada podendo fazer sob o risco de destruição da própria vida. 
Sem coragem para visitá-lo na prisão viu o tempo passar até chegar o dia do julgamento, amplamente divulgado por toda a imprensa. Acompanhou silenciosamente todos os passos, guardando para si uma verdade, que se não o livrasse, talvez a destruisse, e neste dilema, seguiu em frente até ser proclamado o veredicto condenatório de trinta anos de prisão para desespero de ambos. 
Passaram-se dez anos, e após o esquecimento do caso, aquele homem recebe o benefício da liberdade condicional. Dez anos mais velho, andando pela cidade a procura de emprego, fica próximo ao local onde trabalhava, esperando quem sabe, encontrar-se com ela ou com algum velho amigo que pudesse baseado em experiências passadas alguma luz refletir. 
Estando sentado próximo ao restaurante onde ambos costumavam almoçar e onde tudo começou, viu aquela mulher dez anos mais velha, pouco desgastada pelo tempo, bastante alegre, acompanhada de uma senhor que parecia companheiro de trabalho e com muita intimidade; sentaram-se a mesa, almoçaram e depois sorridentes, entraram no carro e foram em direção ignorada por ele. Achou melhor deixar pra lá e seguir a vida. 

 

 

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Por Um instante | Sexta-feira, 10 Setembro , 2010, 12:57

 

 

Era uma prostituta que fazia ponto no centro da cidade frequentando bares noturnos, sempre em contato com gigolôs que por vezes agenciavam programas, ora conseguindo alguns individuais, ora praticando delitos para complementar a renda.
Teve uma infância normal, filha de um pai que por se achar mais esperto que os outros, vivia praticando pequenos golpes. Com três filhos de pais diferentes, o primeiro, resultado de um casamento arranjado por seu pai, que por conveniências momentâneas, achou que deveria aceitar mesmo que a contra gosto; caso rejeitasse, ficaria em situação delicada com consequências talvez inimagináveis. O segundo, resultado de uma relação quando casada com um gigolô homossexual, que mais velho e em fim de carreira, lhe deu este presente no intuito de agredir seu honesto marido, que sem se envolver com a bandidagem era tido como fraco e covarde, e pela lei dos marginais, merecia cuidar de filhos alheios. O terceiro, resultado de uma relação ainda casada com um freguês arranjado por seu gigolô, pai do segundo filho, por estar velho e em fim de carreira, tentava conseguir para ela coisa melhor que o marido que detestava. O resultado foi este: filhos de pais diferentes sem conseguir nenhuma relação que prestasse e com biscates na mão de gigolôs.
Atualmente se encontrava com um que por coincidência da vida, foi auxiliado pelo seu ex marido por questões humanitárias. Além do ofício de gigolô, era biscateiro possuindo relações familiares com os parentes da messalina; seu ofício era pequenos negócios ilegais como golpes financeiros tipo boa noite Cinderela em homossexuais, agenciar transferência de drogas ou mesmo quantidades maiores sempre visando conseguir dinheiro.
Um fato inesperado dado pelo destino aconteceu entre aquele gigolô e a concubina. De forma inesperada se apaixona por ela, mas pela dureza da vida que vivia, este amor não se apresentou de forma sadia, vindo elaborado por uma violenta paixão com ingredientes de ciúmes e tentativas de domínio. Pela atividade que exercia não poderia evitar que aquela mulher bem apessoada, ganhasse a vida deitando com outros homens. Após oferecer-lhe exclusividade com casa e comida para uma vida a dois, prontamente rejeitada pois gostava da agitação em que vivia. Achava que não poderia se adaptar a uma vida regular de mãe de família, deixando para aquele homem o dia a dia da vida dura lá fora.  Ao ser rejeitado, criou em sua alma uma forte angústia vendo a mulher que amava ser abordada, negociar o amor, sair e voltar como se nada tivesse acontecido, e pior, nada podendo fazer.
Certa vez apareceu para ele uma oportunidade de agenciar uma entrega de droga em outra cidade. Imediatamente propôs que levasse o carregamento com entrega marcada na rodoviária da mega cidade e pagamento no final. Ao combinar o preço e fazendo contato prévio com o receptor, apanhou o ônibus no intuito de levar a entrega até seu destino. Durante a viajem achou que aquele homem violento, agressivo, ciumento, não deveria merecer sua confiança. Tinha plena consciência de tê-lo rejeitado e a dureza da vida lhe ensinou sobre vingança e ódio; fatos a serem considerados.
Mais ou menos uma hora antes do destino final, foi até o motorista do ônibus e pediu para desembarcar na estrada, pois não estava sentindo-se bem e queria ir a um médico, no que foi prontamente atendida. Aproveitando-se da proximidade, apanhou um táxi em direção à rodoviária. Lá chegando antes do ônibus, notou movimento policial próximo à plataforma em que desembarcaria. De longe, observou que o ônibus foi abordado por um grupo de policiais que após vistoria em todos os passageiros, nada encontrou.
Calmamente foi até o guichê da mesma viação e comprou a passagem com destino de volta, escondendo o material da entrega no fundo da bagagem. A noite procurou seu agente no negócio, devolveu-lhe a encomenda dizendo que havia sido delatada e avisada por telefonema anônimo que a polícia a estaria esperando. Disse-lhe que tinha sido vítima de uma traição, não sabendo a autoria. Decorrente a isto, evitou o local de encontro pois a polícia a esperava na rodoviária.
Com aquela dúvida na cabeça e o carregamento de droga na mão, mandou executar o traficante que com ele fez o negócio; tal execução foi interpretada pelos colegas do mesmo como um crime que necessitava vingança, o que foi feito por parte dos comparsas. Certo dia estando próximo a boate em que frequentava, foi assassinado de forma abrupta sem que ninguém soubesse o motivo.
Ao terminar o relato no confessionário da igreja, o padre pediu a dissoluta que rezasse uma ave maria por ela e duas pelo morto, dizendo que estava perdoada por ter sido vítima de um amor que se transformou em ódio pelos desencontros da vida.

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Por Um instante | Quarta-feira, 01 Setembro , 2010, 10:50

Bem sucedido profissionalmente, as custas de muito sacrifício e trabalho, progrediu. Construiu uma família composta por esposa e dois filhos, dedicando-se com afinco, nada faltando de material ou emocional caso por ventura necessitassem. Sua característica principal era o silêncio, tido como de poucas palavras evitando conflitos sejam de ordem profissional pessoal ou ideológica. Nunca era visto discutindo sobre qualquer tema e sempre que em alguma ocasião era impelido ou provocado à disputa, imediatamente calava-se, recolhia-se, não por covardia ou medo, mas por verdadeira aversão a este tipo de embate; não via nenhuma vantagem.
Em casa queria saber dos estudos dos filhos e da vida cotidiana, procurando sempre sair com eles e a esposa. Reservava burocraticamente uma noite por semana para algum jantar ou mesmo cinema ou teatro, que pudesse dar a ela alguma compensação emocional pela dedicação exclusiva à tarefa de ser mãe e administrar a casa cuidando dos filhos.
O sucesso chegava para ele por ser pessoa dedicada e estudiosa, embora não tivesse o apoio de grupos que pudessem alavancar sua carreira, e pela esperteza do olhar, de forma individual como um lobo solitário, aguardava a oportunidade pacientemente. Talvez tenha sido este método de atuação que o levou a estar no momento certo para alavancar a carreira de forma bem sucedida, mas que tinha um preço. Como tudo na vida é pago, seu preço só Deus e ele sabiam; agora pacientemente contava para aquela mulher que compartilhou com ele sua vida pessoal como secretária dedicada e sincera. Cuidava de toda sua vida dentro da empresa, nunca tinha notado nela uma falsidade, um deslize, nada que a desabonasse em sua atividade profissional.
De fato, além de profissionalmente competente, por ser solteira, tratava da vida profissional do chefe como verdadeira esposa. Dava a ele momentos de atenção e carinho compartilhando as dificuldades profissionais, coisa que sua esposa não poderia fazer já que pouco entendia e não tinha a vivência necessária para entender os trâmites do mundo dos negócios. Sua esposa achava que as carreiras eram lineares subindo os mais competentes por reconhecimento dos méritos pessoais e profissionais, e por tal, seu marido preenchia todos os quesitos necessários para avançar, já que possuía vida pessoal estável, por ela velada cuidadosamente. 
Sua secretária com discrição e competência nunca deixou revelar um sentimento a mais pelo chefe, que ele como homem compreendia como possível, intuía, enfim achava em seu íntimo que havia naquela mulher mais do que uma simples dedicação profissional, um zelo a mais que consigo chamava de amor. Apesar do conjunto da obra, zelo no serviço associado a conselhos profissionais e familiares, nunca chegaram aos prazeres do amor, menos por medo de avançar e mais pelas consequências materiais que isto acarretaria.Temia o desgaste familiar e o preconceito arraigado de que poderia prejudicar sua carreira profissional na empresa, e sabendo eventos escandalosos entre funcionários sempre emitia opiniões desabonadoras a respeito.
Apesar de um amor interesseiramente platônico, a confiança era total sob todos os pontos de vista, depois de obtido todos os postos e vantagens dentro daquela empresa. Por ter chegado ao auge não teria mais nada a ambicionar levando-o a uma revisão interior de sua vida, trazendo à tona um fato que foi o divisor de águas para o seu sucesso; enquanto falava, ela impassível e pacientemente o escutava.
Conta que ao ser admitido foi trabalhar em um departamento diretamente relacionado à diretoria, e junto a ele entrou o filho de um diretor que ocupava cargo chave de acesso à presidência. Ambos mantinham relação cordial mesmo porque sabia que suas chances em vencer o filho de um dos diretores, era mínima, restando além do conformismo, alguma migalha que pudesse daí advir, mesmo porque o relacionamento entre o pai e filho além de cordial e respeitoso mostrava a bondade do diretor para com ele, que por questões óbvias, privilegiava o filho. Dava contudo certo grau de atenção e admiração a ele, sabia de suas origens humildes e de sua ambição e dedicação pela empresa. Sempre achava que em algum momento também seria aquinhoado com alguma coisa, menos obviamente que o colega, pois decerto o melhor seria para ele e disto não tinha dúvidas.
Tratou portanto de agradar a pai e filho, pois no mínimo, sabia ser esta a melhor política, caso contrário, uma disputa certamente o levaria ao fracasso. O melhor era se conformar e esperar uma oportunidade em outra empresa talvez.
Sempre saia com o amigo procurando de certa forma cativar sua confiança, indo a festas, boates, quer dizer: conhecia mais ou menos seus hábitos, de certa forma bastante previsíveis.
Aos poucos por não ter condições de acompanhar o ritmo do amigo, a base de riqueza era evidente, o sucesso com as mulheres, os gastos e tudo o mais, levaram-no a se convencer de que aquele ritmo não era para ele, procurando manter uma relação mais formal já que a social estava levando a um desgaste desnecessário.
Passou com o tempo achar que devido a afinidade dele com o pai do amigo, caso aquele homem ficasse sem seu filho e não possuindo outro para colocar em seu lugar, algum lucro teria caso houvesse algum imprevisto em sua vida . Esta ideia passou a tomar corpo no seu interior e a cada conversa que tinha com o pai do amigo, notava uma relação positiva, mas certo que o pai iria privilegiar o filho por questões óbvias e que entendia perfeitamente.
Quem sabe, pensou ele, um assalto com morte mudaria a sua sorte com aquele homem, ideia esta que passou a atormentá-lo já que viviam numa grande cidade e este tipo de evento hoje em dia era uma rotina. Como tinha acompanhado todos os passos do amigo na preparação para assumir o lugar do pai na empresa, não seria absurdo pensar que na perda do filho, o amigo que a seu lado esteve poderia assumir o lugar a ele reservado. Esta ideia começava a deixar de atormentá-lo para silenciosamente tomar corpo em sua alma, deixando de ser um pesadelo, uma angústia, para tomar formato de plano, de insídia. Observou que não seria muito difícil executá-la, pois conhecia os passos do amigo e caso escolhesse um local adequado, pouco povoado, poderia quando saísse do automóvel sofrer um assalto com morte e perda de alguns pertences.
Providenciou uma arma clandestina e fez de forma discreta um curso de manejo, e ao se achar em condições de execução do plano, não pensou duas vezes. Como sabia o local em que naquela noite de sábado o amigo iria, pois o teria confidenciado, viu que pelas condições do mesmo, seu recolhimento e pouca gente, que aquele estacionamento seria o ideal para executar seu plano. Aguardando-o de forma discreta e prestando a atenção para saber se estava só, viu que era chegada a sua hora anunciando o assalto, no qual o amigo meio que desconfiado saiu do carro para entregá-lo, foi alvejado na cabeça sem defesa e com morte imediata. Procurou retirar alguns objetos pessoais e procedeu imediata fuga.
Ao ser informado pelo pai do amigo o acontecido, dirigiu-se ao encontro daquele que se tornaria mais tarde seu protetor e nesta hora de desespero mostrando amizade e compaixão, decerto daria mais consistência a seu plano. Como tudo ia bem foi ficando para os preparativos, velório e por fim enterro e com grande consternação chegou a chorar, não sabendo se pela perda do amigo ou se pela merda que tinha feito, tudo por ambição cega e covardia.
Daí para frente era só recolher os frutos daquela empreitada bem sucedida, pois segundo informações da polícia e acompanhadas atenciosamente por ele, infelizmente não havia nenhuma pista do assaltante, pois deveria segundo supunham os policiais, ser originário de qualquer favela das redondezas, ficando este como mais um crime a ser desvendado.
Notando estar em vantagem nos acontecimentos, procurava tocar a vida de forma discreta como sempre tinha feito e deixando para a espontaneidade dos fatos, a sorte sorrir-lhe como estava ansiosamente esperando. Ao retornar ao trabalho, assumiu todas as obrigações que eram de sua vítima, pois além de conhecê-las perfeitamente era a pessoa que profissionalmente estava mais habilitada a receber tais funções, e devido ao bom relacionamento com o chefe, não houve nenhuma objeção por parte dos demais membros da diretoria.
Daí para o sucesso foi uma questão de tempo até que devido ao desgosto pela perda do filho, aquele pai resolve se aposentar e deixar o amigo do seu filho no lugar, no que foi muito bem aceito pelos demais, advindo daí, uma carreira de sucesso.
Escutava atenta até que aquele homem livre do pesadelo que o atormentava a anos, silenciou e de cabeça baixa mostrava o alívio da consciência atormentada por um sucesso obtido pelo ódio, fraqueza e covardia, provocando nela o perdão dos apaixonados; levantaram-se, ela o abraçou e o beijou profundamente pois saberia ser esta a única oportunidade que teria.

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